quarta-feira, 8 de julho de 2015

PARA ALÉM DO BELO E DO FEIO – A MORTE DA ARTE NO BRASIL

Milton Simon Pires




Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda em 1968

Uma das frases que mais  encanta  os brasileiros é “gosto não se discute”. Parece que toda vez que alguém a pronuncia faz na verdade uma profissão de fé. Demonstra, não importa como, que se diferencia de uma verdadeira “legião de fanáticos”: pessoas retrógradas e de “direita” que  sustentam que a música, a pintura, o cinema e a  literatura (só para citar alguns exemplos) tem regras próprias cujo domínio exige por parte do artista uma atividade disciplinada e, em certa aspecto,  racional. Proclama-se orgulhosamente que a chamada “inspiração” não tem regras, coisa que me faz recordar gente que, substituindo turismo por estudo, julga-se grande conhecedora de países estrangeiros. É cômico (para não dizer  triste) observar aqueles que,transformando ateliers  e estúdios de gravação em consultórios de psicanálise, misturam  os conceitos de beleza e democracia de uma forma tão desonesta.
O objetivo deste pequeno texto é uma ligeira reflexão sob o conceito de beleza e da própria arte no Brasil dos dias de hoje. Antes de começar; algumas rápidas observações. Estética é um campo próprio da filosofia. Seu domínio está muito além da capacidade de alguém que aborda o assunto como amador porque encontrou na Medicina uma profissão e na Filosofia um hobby. Decorre daí a necessidade de um aviso – que ninguém perca tempo achando que vai aqui uma definição clara daquilo que é ou não é “arte verdadeira”. O enfoque é muito mais modesto. Trata-se de apresentar a confusão existente entre os conceitos de beleza e justiça e sustentar que, uma vez proprietária do discurso que diz o que é a verdade na História, uma “elite cultural” passou também a definir o que é ou não a verdadeira Arte. Foi na década de 1960 que isto ocorreu. Na filosofia imperava a desconstrução. Derrida, Deleuze, Foucault, entre outros questionando a própria linguagem, reduziram aquilo que havia de racional na comunicação a  uma simples manifestação de uma verdade maior – uma verdade simbólica incapaz de ser alcançada tanto pelo homem comum quanto pelo intelectual  “não engajado”. Só era considerada arte aquela manifestação capaz de promover “transformação social”. Foi dessa linha de pensamento que surgiram as condições necessárias para que  Sabiá, em 1968 fosse vaiada por uma plateia que preferiu um hino maoísta, Para não dizer que não falei de Flores, como vencedor do Terceiro Festival Internacional da Canção. Esse foi, na minha opinião,  um momento crucial na história da arte brasileira. Ao vaiar a obra-prima de Tom Jobim, o público brasileiro fazia uma profecia – dali em diante poderia se esperar de tudo:  desde Valesca Popozuda até o Bonde do Tigrão abriu-se a lata de lixo da MPB. Ao mesmo tempo agonizavam o cinema, o teatro e as artes plásticas. A geração de 1968 conseguiu acabar com toda necessidade de recolhimento e do esforço de um verdadeiro artista quando pretende alcançar o belo e desde aquela época até hoje o que se assiste num país com a riqueza cultural do Brasil é um festival de obscenidades e uma mediocridade incrível que prima por chocar e agredir. Essa “nova geração”, sendo incapaz de saber o que é o belo, define de forma magistral o que é o feio. Ex-prostitutas, assaltantes e traficantes lotam estádios inteiros com o charme de pertencerem “a comunidade”, “ao mundo real”, e de cantarem e atuarem “sem preconceitos” porque são “gente do povo” - como se isso fosse pré-requisito mínimo para “ser artista”. Cantam, não as ruas, mas o lixo delas nas grandes cidades porque fazem a apologia da maconha, do crack e da iniciação sexual precoce da mulher brasileira. 
Nossa literatura toda prima pela pornografia e desabafos de escritoras que fracassaram no casamento e na criação dos filhos. Nossos “grandes escritores” são uma vergonha num país que deu ao mundo gente como Machado de Assis, Érico Veríssimo e Mário Quintana, além de pensadores como Gilberto Freire ou Mário Ferreira dos Santos. Seu único dado de currículo é  literalmente terem sobrevivido  ao uso fanático de drogas e as tais “experiências místicas” dos anos 60.  Nossos artistas plásticos flertam com a esquizofrenia a ponto de, ao entrarmos em uma exposição,  não sabermos o que é a “obra” e o que pertence a parte do ambiente onde não passou o serviço de limpeza. Na mesma linha, o cinema nacional leva as telas a vida de uma prostituta viciada em cocaína como alguém que “venceu na vida”. 
Tudo lixo...tudo mentira..e pior financiado por um Governo Federal corrupto que insiste em promover esse tipo de gente sempre, é claro, roubando tudo que pode,  inaugurando todo tipo de obra com cantoras nordestinas de minissaias  tão curtas quanto suas ideias e bobalhões com cabelo moicano cheio de gel cantando com sotaque de Ribeirão Preto.
Encerro aqui meus amigos. Que vergonha ser brasileiro nessa hora! Nietzsche achava que deveríamos buscar uma vida além do bem e do mal. Ele jamais conseguiu e morreu louco por causa disso mas o Brasil alcançou algo impressionante – uma arte além do belo e do feio, uma imundície  tão grande que não representa nada mais do que a morte da própria arte.

Porto Alegre, 25 de janeiro de 2013


Milton Pires

Médico 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O lado bom da vida

Por: Fabiana Ratti, psicanalista 

Depois de um pouco de política, após algumas manifestações que pararam o Brasil, voltamos aqui para a psicanálise. O Lado bom da vida (2012) de David O. Russell é um prato cheio para a discussão. O filme é realmente bom, com excelentes interpretações de Tiffany (Jennifer Lawrence), de Pat Solatano (Bradley Cooper) e dos pais Robert de Niro e Jaki Weaver. Estão todos ótimos.

 Pat Solatano é um dos casos psiquiátricos típicos. Com um pensamento desconexo, destrói e arruma confusão com o quem está a sua volta. Perde a noção de ´realidade´, se é dia ou noite, fala coisas desbaratadas sem medir as consequências. Pat chega a ser internado em Sanatório pois perdeu as capacidades de trabalho, a esposa e a casa. A mãe tira-o da internação mas Pat é rebelde. Não toma remédio, trata com descaso sua doença, tenta nega-la, como muitos em sua condição. Tem a ideia fixa em voltar com a esposa, mas não se esforça em retomar suas atividades.

O filme é bem interessante. Mostra como a família tem dificuldade em saber como lidar com um filho que passa por problemas psiquiátricos. Marca o quanto os pais querem dar amor, como ficam tristes e desesperançosos, angustiados por uma solução que eles duvidam que algum dia chegue. Também mostra as ‘esquisitices normais’ de uma família e a dificuldade em saber o que liberar ou exigir de um filho nessas condições. 

Um dia, Pat é apresentado a Tiffany, uma moça que também tem seus problemas. Porém, Tiffany é insistente. Aproxima-se de Pat e usa todos os recursos para que ele participe de um concurso de dança. Com o tempo, a energia psíquica de Pat passa a se dirigir para esse novo projeto de vida. Então, começa a tomar o remédio, a ser pontual nos ensaios, a não falar tantas bobagens ou magoar quem está próximo. Dedica-se ao tratamento medicamentoso e psíquico, que ele passa a frequentar e falar com mais desenvoltura. A energia psíquica passa a ser canalizada para um projeto, para uma pessoa. Segundo Lacan, isso ajuda a estabilizar o sujeito.

Tiffany, além de ter de insistir e manobrar Pat, também precisa administrar a família dele, e, na cena em que isso acontece, é hilário. Toda a família, apaixonada por  futebol americano, se reúne, bebe e torce junto. Tiffany percebe que o pai ‘puxa’ o filho para ficar perto de si não o liberando para os ensaios. Ela, perseverante, estuda e raciocina a melhor forma de ganhar a família, e portanto, ficar com Pat por mais tempo. Então, saca do bolso uma frase, mais ou menos assim para o pai: Você nunca reparou que seu time vai muito melhor quando seu filho está comigo? E elenca os jogos e suas respectivas pontuações. Nesse momento, ela ganha toda a família!

Lacan trabalha bastante, em seus últimos ensinos, a questão dos Nomes do Pai. É um termo para falar sobre as versões em que os pais se manifestam, as leis que os pais apresentam ao filho e o quanto isso afeta seu aparelho psíquico. O sujeito lê e compreende essa lei afetando sua vida. Após alguns anos de frustrações e internação, Pat estava fazendo investimentos psíquicos em projetos que o estavam agradando. Ele canalizou sua pulsão num viés que o levou a querer investir na vida. Com a autorização do pai, com uma lei paterna, com a aprovação da família, o filho pode deslanchar ainda mais. É bem interessante como o filme mostra essa virada de posição. Essa guinada. De uma pessoa perdida e desgovernada psiquicamente, ela própria, por leis internas de seu desejo e com a participação da família e da amiga, pode fazer uma guinada em sua vida. De um sujeito fora da lei, off Broadway, ele passou a se inserir em seu meio, via sua própria versão de inserção. Vale a pena ver como ele fez isso e como todos se posicionaram para tal.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Dave – presidente por um dia




Por: Fabiana Ratti, psicanalista 

Dave - Presidente por um dia (1993) é daqueles filmes que gostaríamos que fosse realidade. O roteiro é bem original, apesar de não haver muita verossimilhança, é isso que deixa o filme mais divertido. Dave (Kevin Kline) é um cidadão animado que tem uma agência de empregos nos Estados Unidos e adora ajudar os amigos. Leva uma vida pacata sem grandes aventuras financeiras ou afetivas. Um dia, o serviço secreto o procura, pois ele é um sósia perfeito do Presidente dos EUA - Bill Mitchell (Kevin Kline). O presidente irá para uma reunião íntima com a secretária e precisa de um sósia para aparecer em um evento, Dave é convocado.

Dave é orientado a seguir o protocolo do presidente, acha tudo aquilo muito estranho, mas lhe é imposta a tarefa. Ele a executa com alegria e despojamento. Diverte-se por estar em um lugar inusitado, com tantos requintes, diferente de seu mundo. Porém, o script não sai conforme o esperado. O presidente passa mal em seu encontro com a secretária e precisa ser internado. Ao invés de chamarem o vice-presidente, Dave assume o cargo sem que a população saiba, por artimanha dos homens de ‘confiança’ do presidente. 

Bill, o presidente, fica internado em uma ala escondido do público e da própria Casa Branca. Ou seja, o roteiro um pouco a ser questionado, porém, a partir daí, Dave assume e o filme deslancha. A princípio, toma a atitude passiva que havia assumido no começo e é comandado pelos homens de confiança do governo, com o tempo, Dave vai se dando conta da sua responsabilidade, do absurdo da situação e encarna realmente um presidente, um presidente cidadão. Que não precisa fazer conchavos, que não tem nada a perder, que pode falar e fazer o que pensa e realiza o que muitos cidadãos desejam – um governo mais justo e honesto.

Dave podia estar no Brasil. Em pleno mês de manifestações exaustivas em que o povo pede mais justiça e reorganização do investimento em setores como saúde, educação e transporte, ele podia fazer uma aparição por aqui. Entre algumas manobras que ele consegue fazer, em uma simples reunião: enxuga o orçamento de propaganda do governo, pára de pagar empreiteiras que não estão fazendo nada e reinveste o dinheiro em áreas que são realmente necessárias. Uma reunião que todo o povo brasileiro espera que um dia aconteça!

Dave - Presidente por um dia é uma filme divertido. Aparecem alguns personagens em suas próprias funções, como Arnold Schwarznegger; tem um pouco de romance; mas, sobretudo, mostra que seria possível. Seria possível um governo mais honesto que priorizasse a população em detrimento de narcisismos pessoais e egóicos. É um filme catártico. Dave fala e faz o que muitos de nós gostaríamos de ouvir e perceber os resultados na prática. Vale a pena assistir a esse filme singelo.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O que significa civilização?


 
Significa uma sociedade baseada na opinião dos civis. Significa que a violência, o governo de guerreiros e líderes despóticos, as situações de campos de concentração e guerra, de baderna e tirania, dão lugar a parlamentos, onde são criadas as leis, e a cortes de justiça independentes, onde essas leis são mantidas durante longos períodos. Isso é civilização – e em seu solo crescem continuamente a liberdade, o conforto e a cultura. Quando a civilização reina em um país, uma vida mais ampla e menos penosa é concedida às massas. As tradições do passado são valorizadas e a herança deixada a nós por homens sábios ou valentes se torna um estado rico a ser desfrutado e usado por todos. O princípio central da Civilização é a subordinação da classe dominante aos costumes do povo e à sua vontade, tal como expressos na Constituição (...)

(Winston Churchill, Civilization, 1938.)

Onde está a civilização? No divã estão aparecendo muitos casos de roubos, assaltos à mão armada, latrocínio, sequestros, arrastões, balas perdidas e agora até pessoas incendiadas... Desde presidente, governo até a prefeitura: onde estão os governantes? Pensando na reeleição? Em como assaltar mais e mais os cofres públicos? Onde estão os representantes do povo que foram eleitos para cuidar e gerenciar uma sociedade em prol do cidadão? Há duas décadas que nosso governador está no poder. E o que tem feito pelo Estado? Pela educação? Pela saúde? Pela segurança? O Palácio do governador fica instalado num dos bairros mais violentos de São Paulo. Cada político deve passar com seu carro blindado, ‘protegido’ da barbárie instalada. O cidadão comum, que paga seus impostos, fica exposto ao vandalismo de uma sociedade anêmica. Tiraram tudo das pessoas. O direito a estudo, à saúde, a lazer, a transporte, a uma vida digna, por mais que a constituição dê esses direitos ao cidadão, na prática, não é isso o que temos.

Para Freud, o ser humano é um bicho, como qualquer outro. Quer comer, dormir, fazer suas necessidades biológicas e sexuais. Quer um território que seja seu e para isso luta com todas as forças por sobrevivência, usando até de violência e agressividade. É o lado racional, a linguagem, as regras e leis que tornam o ser humano capazes de viverem numa sociedade mais complexa, com direitos e deveres. Deixando de ser um bicho para ser um cidadão civilizado.

Como as leis nesse país não estão servindo, não são igualitárias a todos os homens, as pessoas estão ficando raquíticas intelectual e culturalmente. Dessa forma, estamos deixando de fazer parte de um mundo civilizado no qual a política, a ética e as leis são soberanas e estamos voltando às guerras de trincheira, caminhando para um mundo da barbárie, da terra de ninguém... Deixando o medo e a insegurança dominarem a população.

Quando os políticos (de todos os partidos) vão abrir mão da ganância, do egocentrismo, de seus narcisismos pessoais e contribuir para uma sociedade mais justa, um povo mais nutrido física e intelectualmente e uma nação que segue leis? Quando a sociedade e o bem de todos ficarão acima de vaidades pessoais? Quando deixarão de ser bichos selvagens e poderemos ter uma sociedade digna e civilizada? 
    
Por: Fabiana Ratti, psicanalista

sábado, 18 de maio de 2013

Ruby Sparks – A namorada perfeita



Por: Fabiana Ratti, psicanalista 




Ruby Sparks – A namorada perfeita é uma produção americana de 2012 dos mesmos diretores de A pequena miss sunshine, Jonathan Dayton e Valerie Faris. É um filme bem mais simples e pode passar por uma usual comédia romântica. Mas é bem interessante do ponto de vista da psicanálise.

Calvin (Paul Dano) é um jovem romancista que já teve alguns sucessos e, como todo sucesso do século XXI, não foi pouco. Nessa era em que estamos, ou ninguém lê o livro, fica por meses nas prateleiras, ou vira febre, comoção internacional com noites de autógrafos e desmaio do público. Calvin era desses que virou notoriedade mas que no momento está sem inspiração para uma ideia interessante. Outra questão de Calvin é que tem uma vida afetiva um pouco parada. Parece ser bastante sensível e exigente, não acompanhando a agilidade da vida sexual desse nosso século.

Então, imbuído de muita concentração cria uma personagem nova, Ruby. O inusitado do filme é que ela ganha vida e aparece em sua casa, age como se fosse sua namorada, conhece sua rotina e as pessoas a seu redor. Por um tempo, Calvin pensa que está tendo um surto, desconectado da realidade e vendo coisas, mas depois, percebe que Ruby é bastante real, interage com as pessoas e participa ativamente de sua vida.       

Fora as bizarrices, com cenas e falas inusitadas, pois a situação é bem peculiar, o que tem de interessante no filme é que Calvin, vendo que sua namorada é uma personagem criada por ele, começa, através da escrita, a manipular suas atitudes, sua fala, seu temperamento. Ruby se torna a namorada perfeita! Como analista, sinto que esse é um sonho de quase todo ser humano. Imagine poder manipular a pessoa, mudar seu humor, fazer com que ela goste de seus programas, respeite seu ritmo incondicionalmente!?! Imagine poder unir em uma só pessoa todas as características boas, todas as qualidades e não precisar dar a contrapartida? Não ter risco de perdê-la?

Ou seja, Calvin constrói um ser que tende à plenitude. Um ser que corresponde a suas expectativas, que não pede nada em troca e que está pronto para tudo a qualquer momento. Quantas vezes não desejamos essa posição de uma pessoa!? Porém, o filme mostra o outro lado da questão. Calvin começa a se sentir sozinho, começa a ver que tem ao lado uma pessoa que não pensa por si, que não age e que não tem seus próprios interesses, e quanto isso é chato!

Ter um relacionamento inclui a ‘incompletude’. Inclui defeitos, temperamentos e ações não tão esperados, inclui dificuldades e obstáculos que os dois ultrapassem juntos. O relacionamento afetivo é uma via de dupla mão, e pode ser bem chato se não for assim... é isso que o filme mostra com alegria e bom humor! 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A pequena Miss Sunshine e Intocáveis




A Pequena Miss Sunshine (2006) e  Intocáveis (2011) são dois filmes bem diferentes que têm um ponto em que são muito semelhantes. Com ótimas tiradas, inteligência e emoção, esses filmes conseguem falar de assuntos sérios e relevantes para nossa sociedade atual, com uma enorme capacidade de fazer o público gargalhar.

A pequena Miss Sunshine relata a história de uma clássica família dos Estados Unidos. A mãe (Toni Collette) que tenta dar conta dos cuidados com a casa, o filho Dwayne (Paulo Dano) que não se expressa por um voto de silêncio por causa de frustrações. O avô (Alan Arkin) que foi expulso da casa de repouso por uso de drogas. O tio gay Frank (Steve Carell), que foi morar com a família porque tentou o suicídio. O pai Richard (Greg Kinnear)  é a personificação do espírito americano que deseja vencer só com pensamentos e palavras positivas. Ele vende livros de auto-ajuda e o filme mostra a disparidade entre a imagem de ser bem sucedido e as dificuldades para manter e cuidar de uma família, do trabalho e da vida. Ou seja, não bastam as palavras, é preciso esforço, diálogo, união. E isso, o filme mostra com muita simpatia, ao passarem três dias juntos viajando numa Kombi Amarela.  A família decide levar a filha Olive (Abigail Breslin) para um concurso de beleza e assim, viajam do Novo México à Califórnia.   

A pequena Miss Sunshine critica o mundo de aparência que corrói e destrói nossa sociedade atual. Um mundo de barbies, roupas, sapatos e cabelos que tiram a naturalidade, distanciam as pessoas, gera ganância e competitividade gratuita entre as pessoas. Esse mundo pode começar com as crianças e gerar famílias inteiras desarticuladas e distantes. Os diretores conseguiram, de forma maravilhosa, ridicularizar e ironizar tamanho absurdo que acontece em nossa sociedade com muito humanismo e simpatia.

Por outro lado, Intocáveis é um filme francês que relata a dor e a dificuldade de um homem que se tornou tetrapégico e precisa de um acompanhante. Como é possível falar sobre isso de forma hilária? Como o diretor conseguiu? Como ele perdeu o Oscar para aquele terrível “O Artista”? Intocáveis é baseado em fatos verídicos. Philippe (François Cluzet) é um aristocrata e contrata Driss (Omar Sy) para trabalhar. Driss, acostumado com o subúrbio, com a miséria e a simplicidade, fica estarrecido com um novo mundo de riqueza. Mas Driss, não se acanha. Assume a sua personalidade, se coloca, faz seus comentários e não se inibe com suas ignorâncias e pontos de vista. Por outro lado, Driss sabe sorver esse novo mundo. Tem a humildade necessária para aprender e a petulância suficiente para não se acanhar ou se excluir, características muito difíceis, mas necessárias, para quem circula de um mundo ao outro.  Driss conquista os outros funcionários da casa, se posiciona para a filha do patrão, e cria com Philippe uma nova forma dele se autorizar a continuar a viver, apesar das impossibilidades que fazem parte de sua nova vida.   

Rir desopila o fígado. Rir ‘abre o inconsciente’. São dois filmes que merecem a bilheteria e o sucesso que tiveram!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Bem vindo à vida




Bem vindo à vida é um filme de Alex Kurtzman bastante sensível e inspirador. Um drama que vemos, cada vez mais, nos consultórios dos analistas. Com a morte do pai, Sam (Chris Pane) descobre que seu pai tinha uma outra filha de um outro relacionamento e recebe a incumbência de entregar sua herança a ela, Frankie (Elizabeth Banks).

Uma frase muito usual nos dias de hoje é: “separou da esposa, separou dos filhos”. Essa frase aponta o quanto algumas relações paternas estão ficando defasadas, o quanto as dificuldades nos relacionamentos afetivos homem-mulher afetam as crianças e as famílias como um todo.

Esse filme é especial porque mostra um pai frio e distante, um pai com seus vícios e de uma certa forma, narcisista, pois parecia pensar somente em si. Um pai desses que esquecem e pouco se importam com os filhos. Porém, o filme é surpreendente pois, logo no começo, quando deixa o compromisso de entregar sua herança à outra filha, ele demonstra seu desejo que eles se conheçam, demonstra o desejo de cuidar dessa filha que parecia esquecida.

Nesse movimento, Sam passa por diversos sentimentos. Sente egoísmo, reflete, comove-se, pensa, se interroga. Sam abre uma porta de contato com a mãe (Michelle Pfeiffer) e passa a ter uma relação mais sólida com a namorada (Olívia Wilde). O mais interessante é que começamos a pensar o quanto esse pai sofreu, o quanto ele os amava, o quanto era difícil para ele, mas o quanto ele era impotente. Não soube lutar para estar ao lado dos filhos com mais dignidade e amor. Muitas vezes, realmente não é fácil, muitas coisas estão em jogo. Mas é triste ver que, ao longo da vida, ele economizou amor... deixou de expressar seu amor para filhos que tanto precisavam.

Como psicanalista, me interrogo o quanto isso não é mais freqüente do que supomos. Por traz do descaso e do desprezo de um pai (ou mesmo de uma mãe), pode haver muito amor mal administrado. Pode haver medo e insegurança que impossibilitaram, no curso da vida, a demonstração desse amor. Uma pena! O filme mostra, com delicadeza, o custo pago, por todos os membros da família, essa ‘economia’ de amor.