sexta-feira, 27 de abril de 2018

A Leoa


A Leoa (2017) é um filme norueguês baseado num romance de Eric Fosnes Hansen e muito bem interpretado por Mathilde Thomine. O filme se passa em 1912 numa pequena vila da Noruega, numa estação de trem, e mostra, de forma magistral, como o preconceito pode ser implementado ou banido, dependendo do posicionamento do sujeito, ou dos sujeitos em volta.

O filme começa com um funcionário da estação de trem vendo sua esposa falecer ao dar à luz à sua filha. Essa já é uma situação que não há nada que possa causar mais horror. Para receber a vida da filha precisar perder a sua amada companheira. Tudo que deveria ser um momento de festa e alegria, passa a ser um momento de horror e desespero. Como um senhor do começo do século XX conseguirá cuidar de uma filha sozinho?

Como se não bastasse, a menininha nasce coberta de pelos. Segundo o médico, os pelos do bebê caem no 6º mês de gravidez e os dela não caíram. Ela teria aqueles pelos por todo o seu corpo até o final de sua vida. Eva parece um ursinho de pelúcia cuja doença é chamada de hipertricose.

Esse primeiro momento é absolutamente angustiante e o filme faz jus à tensão necessária. Como investir psiquicamente numa criança que estava causando-lhe tanta dor?

O pai contrata uma moça para cuidar dela e fica bem afastado, nem a olha e nem a toca. Além de tudo, ainda não a deixa ter contato com a sociedade. Ele a exclui de ir à escola, de passear pela rua, até mesmo de ver o sol se alguém estiver passeando pela rua no horário.

Olhando de fora, Eva teria tudo para viver uma vida absolutamente normal, pelo menos até a adolescência, quando outras questões entram em jogo. Mas, na infância, se o pai a tivesse apresentado à sociedade, deixado ela brincar na rua como as outras crianças, levado à escola e enfrentado a sua diferença de cabeça erguida, Eva poderia ter sido incluída pela grupo. Como ele a trancafiou numa torre, o mito da menina que tinha pelos ficou pairando na cidade, mas ninguém sabia como ela era. O pai tinha vergonha de apresenta-la e dessa forma podemos ver pelo filme as angústias e tristezas que podem ser causadas quando dentro da própria casa nasce o preconceito. Logicamente que esse preconceito é criado pelo dor narcísica de ter gerado “um monstrinho”, a sensação que um pai tem diante das incompletudes que o filho aponta.

Eva já tinha uma situação singular, somada à vergonha e às dificuldades do pai, isso tomou uma força desproporcional fazendo com que Eva quase não tivesse vida, quase não existisse... sem amigos, sem encontros, sem vida.

Mas foi sua querida cuidadora que, tomada pelo amor, incentivou Eva a ir para a escola, a
interagir com as pessoas, a batalhar por sua vida. Não é fácil enfrentar a diferença com unhas e dentes. Mas, a acompanhante, com seu orgulho de ver Eva, tão inteligente, crescer e dar os primeiros passos; a incentivou e ela teve coragem, destreza, vontade de crescer e chegou longe. Longe, muito, muito longe. Dando uma prova de que não é o outro que nos autoriza a viver e a fazer parte da sociedade, somos nós mesmos que nos autorizamos e nos incluímos!       
 Por: Fabiana Ratti, psicanalista

quinta-feira, 22 de março de 2018

Dark - série




Dark (2017) é uma série de drama e suspense que se passa numa vila da Alemanha. Parte do sumiço de 2 crianças e o roteiro gira em torno de quatro famílias daquela região. É uma entre algumas séries cujos personagens viajam no tempo. A princípio podemos dizer que é uma réplica do inconsciente. O aparelho psíquico se movimenta como a série mostra. Ele tem suas próprias leis e às vezes parece um túnel escuro onde atravessamos do presente para o passado e para o futuro.

O tempo da série não é como as outras que marcam algo mais próximo do racional com começo, meio e fim, com uma lógica temporal que todos acompanham. Não. Não sabemos se estamos no futuro, no passado ou no presente. E, segundo Freud, essa é a atemporalidade do inconsciente. Tentamos fazer algumas marcações temporais para nos organizar, mas o tempo é descontinuo e segue uma lógica do desejo. Em segundos podemos atravessar o tempo e o espaço com nossos pensamentos.  


Dark fala em triangulação, como se todo o casal tivesse uma terceira pessoa inserida. Para a psicanálise, isso também é uma verdade. Não necessariamente uma traição erótica, pode ser a mãe, o pai, um irmão, um filho, um amigo, um trabalho. Existe uma força que ‘puxa’ o sujeito para várias paixões e é preciso muita decisão para se vincular de fato ao objeto de desejo. Mesmo porque a pessoa amada é uma figura esférica, nos traz alegrias e algumas incompletudes, o que faz essa força ficar ainda mais forte causando uma triangulação nos casais.  

O terceiro ponto é a repetição. Na série eles falam sobre uma repetição de 33 anos, para a psicanálise não seria exatamente esta data. Freud fala em “compulsão à repetição”, uma repetição que se impõe sobre aquilo que não foi elaborado. O que não foi simbolizado retorna no real. Vivemos repetições, que às vezes seguem gerações, até desvendar os mistérios e enigmas das leis do inconsciente.  

O quarto ponto que se assemelha muito à psicanálise lacaniana é que no último capítulo falam em topologia e utilizam um nó topológico para representar presente, passado e futuro, o mesmo que Lacan utiliza para representar os registros do inconsciente.

Um aspecto interessante é que parece que a série não oferece ponto de identificação. Muitas pessoas podem ter gostado da série, mas não parece ser uma série que puxe a identificação do espectador... Sem identificação não tem amor. A identificação é o primeiro passo para o amor. Como uma série que fala tanto a linguagem do inconsciente não inclui o amor?


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Lion: uma jornada para casa



Lion: uma jornada para casa (2017) dirigido por Garth Davis, retrata a história real de Saroo, um menino indiano de 5 anos que saiu de casa com o irmão e se perdeu, entrou em um trem que andou 1.500.000 km e chegou em Calcutá. Saroo não sabia onde estava e nem como faria para voltar para casa, vinha de uma aldeia com outra língua, dizia Ginestlay e era Ganesh Talai, ninguém entendia o que dizia. Depois de passar algum tempo andando pelas ruas de Calcutá foi adotado por uma família de Australianos. Depois de 25 anos ficou famoso ao descobrir o nome de sua aldeia e voltar para casa utilizando o Google Earth.    

O filme mostra 2 pontos que gostaria de ressaltar:

O primeiro é que a família de Australianos adotou duas crianças: Saroo e outro menino. Um dia, a mãe adotiva chegou para Saroo e disse que sentia orgulho dele pois ele havia aproveitado todas as oportunidades que lhe fora oferecido. Ele estudou, aprendeu esportes, fez amigos, tinha namorada, estava pronto para o mercado de trabalho, era gentil com os pais, enquanto o outro irmão era revoltado, brigava por tudo, não pegou as oportunidades e seguia o caminho de destruição das drogas.
Como analistas vemos isso cotidianamente no consultório. Pessoas que têm grandes oportunidades e não aproveitam, reclamam, abrem mão, nem sequer as enxergam. E outras que sabem enxergar, usufruir e acima de tudo, criar novas oportunidades. Sorro foi sujeito, escolheu e decidiu sua vida.

O segundo ponto é que desde pequenininho ele soube ser esperto nas ruas, fugir das adversidades,
soube analisar se a pessoa estava realmente do seu lado ou não, se dispôs a pensar. Mesmo para procurar seus parentes, Saroo se esforçou, se dedicou, sabia o que queria e não se deixou cair na vitimização. Soube ser sujeito.

Muitas vezes, no consultório, a pessoa perde-se daquilo que quer e fica na mão do outro, fica apática e inerte, sem conseguir escolher e decidir a própria vida.


Soroo nos deixa uma lição. Mesmo nas situações mais inusitadas e difíceis é imprescindível ser sujeito e decidir a direção para onde levamos nossa vida! 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Uma Beleza Fantástica




Mais um belo filme sobre amizade na Netflix. Uma Beleza Fantástica (2016) é um drama romântico britânico, escrito e dirigido por Simon About, onde podemos ver excelentes interpretações e visualizar o quanto uma grande amizade pode fazer uma diferença profunda em nossas vidas!

Podemos dizer que o filme faz um belo paralelo entre cuidar de um jardim e cultivar as amizades. Jessica Findlay interpreta Bela Brown, uma moça tímida, solitária e inibida que tem sintomas obsessivos. Ela aluga uma casa e vai trabalhar na biblioteca. Faz tudo no horário contado, usa sempre o mesmo estilo de roupa e faz rituais obsessivos para sair de casa.

Bela parece não ter ligação com nada. Parece executar as tarefas por mera obrigação e sobrevivência. Mas sua vida toma outro rumo quando o advogado imobiliário chega à sua casa e diz que para que ela permaneça na casa, ela deve cuidar do jardim, está incluso no contrato de locação. Ela tem o prazo de um mês para restaurar seu jardim que está em péssimas condições. Bela fica desarvorada. Como conseguiria fazer aquela proeza? Como seria possível cuidar de algo que ela não tinha a menor afinidade?

Começa então a amizade dela com seu vizinho Alfie (Tom Wilkinson), excelente no papel de velho rabugento. Alfie, mesmo com seu temperamento ranzinza, consegue demonstrar grande sensibilidade e extrair o que havia de melhor em Bela. A parceria funciona maravilhosamente bem e ambos crescem com a amizade. Como analista, podemos dizer que ambos estavam embotados afetivamente, cada um, à sua maneira. Estavam sem conseguir investir energia psíquica no mundo. A missão de ensinar sobre jardinagem e por outro lado, a de aprender, fez a ligação entre dois seres que, aparentemente, não tinham nada em comum. O endereçamento ao outro, a troca de ideias e de estórias fez com que os dois despertassem para a vida. 

O filme tem também muita ironia e carisma com Vernon (Andrew Scott) e Billy (Jeremy Irvine), personagens que mostram que nas pessoas ‘esquisitas’ existem seres maravilhosos.


O filme mostra, com muita emoção, o quanto os sintomas são ‘aglomerados’ de inibições para chegar até o outro e fazer laço social... Quanto mais os personagens tinham amigos, amores e projetos pessoais, menos os sintomas apareciam... Bela chegou até a esquecer a porta aberta um dia, uma distração inconcebível a uma obsessiva! Do sintoma ao sinthome (do sintoma a projetos e realização de sonhos), via laço social... como diria Jacques Lacan...  

Fabiana Ratti, psicanalista 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Mágico de Oz (1939) e Onde Mora o Coração (2000)



Onde mora o coração - Where the heart is – é quase que uma recriação do clássico O Mágico de Oz. Onde mora o coração (2000), drama Americano dirigido por Matt Williams e escrito por Billie Letts tem a excelente interpretação de Natalie Portman e colegas de elenco. Novalee Nation (Portman) começa como uma adolescente inconsequente e sem o menor juízo (redundantemente) e termina dando a volta por cima com bastante esforço, trabalho e amizades fieis. Assim como Dorothy, Novalee começa usando um sapato vermelho e tem problemas com ele.

Novalee tem uma vida bastante miserável. Foi abandonada pela mãe aos 5 anos de idade, não teve muito estudo, morava em um trailer e saiu grávida com o namorado que havia roubado um carro. Para onde eles iam? Quais os planos? As perspectivas de trabalho? Nada disso existia... Como se não bastasse, Novalee foi abandonada pelo namorado no estacionamento de um supermercado quando parou para ir ao banheiro e comprar sapatos novos pois havia perdido os seus. Assim como Dorothy, Novalee não sabia qual caminho pegar.  

A situação é muito difícil e, a princípio, sem perspectivas. Mas, Novalee, se refugiando nas noites que se seguiram no supermercado, começou a fazer amizades no entorno. Assim como Dorothy, Novalee fez quatro amigos fieis.

De repente, saiu na TV, virou notícia por um dia: teve seu bebê no Wall Mart... Assim como Dorothy, ganhou presentes e flores, foi recebida com triunfo!

Natalee recebeu a possibilidade de trabalhar no supermercado, foi amparada por uma amiga e soube agarrar a oportunidade. No começo, ainda agiu como a adolescente sem responsabilidade, mas, cada vez mais foi deixando a ‘compulsão a repetição’ e passou a dirigir sua vida segundo seu desejo. Esse já havia sido o abismo que sua mãe havia entrado, saindo em busca de homens que não eram parceiros, apenas devastação em sua vida.

Assim, Novalee seguiu o caminho de sua escolha e não das ofertas de satisfações pulsionais que a vida lhe oferecia. Novalee cuidou de sua filha, foi fiel a seus amigos, trabalhou e construiu uma carreira seguindo o seu desejo. Nas horas vagas, a personagem tirava fotos de eventos e casamentos, chegando até a ganhar prêmio! Ou seja, a personagem tinha tudo para seguir os passos de sua mãe, ou mesmo de pessoas à sua volta: ter vários filhos com homens diferentes, ser alcóolatra, viver na miséria. Mas Novalee soube construir, trabalhar e recebeu presentes da vida com isso.

Presentes e oportunidades que, como psicanalista, é possível perceber que muitos recebem, mas poucos de fato aproveitam e fazem jus a essas oportunidades.

Para esse caminho de construção de um lar, assim como Dorothy, Novalee precisou de coragem, de cérebro e de coração, tudo ela conquistou com a parceria de amigos fieis. No meio do filme temos até um tornado, semelhança mais do que explicita com o maravilhoso Magico de Oz. Sendo o Mágico de Oz representado pelo instrutor de fotografia... a volta ao lar se dá com a construções de nossos projetos e sonhos!  

Novalee se autorizou a crescer e fez escolhas que sustentaram seus projetos (trabalho, maternidade, amizade, vida), independentemente das circunstâncias iniciais. Somente um projeto ela teve dificuldade em se autorizar: o de ter um relacionamento bacana com um homem inteligente e sensível. Ela ainda se via como aquela menina franzina e abandonada (pela mãe e pelo namorado). Nem sempre o aparelho psíquico acompanha o crescimento da pessoa, isso gera a baixa auto-estima e o complexo de inferioridade, pontos tão danosos para a vida do sujeito. Foi somente quando ela se deparou com a castração, com o pai de sua filha amputado, que ela se deu conta de que a vida era curta e ela mesma quem deveria se autorizar a realizar mais um de seus sonhos e, mais uma vez, Novalee seguiu o caminho de seu coração. 

Por: Fabiana Ratti, psicanalista. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A Última Fronteira - The Last Face – (2016)




A Última Fronteira  - The Last Face – (2016) é um drama produzido nos Estados Unidos, dirigido por Sean Penn, escrito por Erin Dignam e protagonizado por Charlize TheronJavier Bardem. O filme discute a precária condição de vida e de subsistência que a África passa em situação de revolução civil e política. A narrativa perpassa a experiência do que aqui no Brasil é chamado de “Médico sem Fronteiras”, iniciativas de trabalho na área da saúde em parceria com a ONU para minimizar o sofrimento em acampamentos e cidades que sofrem ataques e estão em situação limite em todos os âmbitos da vida humana.   

Com cenas de violência e miséria, o filme abre espaço para muitas reflexões, pensaremos em algumas...

A primeira e grande pergunta que se estabelece no cerne do filme é: o que os profissionais de saúde estão fazendo ali? Qual a função deles? A pergunta se coloca pois são tantas bombas e tiros que a morte parece iminente para todos, o trabalho do médico apenas posterga a morte? É como “secar gelo”, um trabalho que parece não ter fim. Essa interrogação gera uma crise psicológica em Wren, a protagonista, e ela, na função de médica, deixa a mesa de cirurgia, montada de forma bastante precária, e começa a dar cuidados paliativos a uma senhora que perdeu as pernas, está para morrer e quer ver o filho.

A segunda grande questão é: numa situação limite, o que deve prevalecer, a saúde mental ou a psíquica? Wren tem um ataque após passar por uma sequência de situações traumáticas: é obrigada a sair do carro porque ladrões roubam o veículo, a equipe é obrigada a fazer a travessia a pé e passar a noite no meio da floresta, é necessário fazer uma Cesária de urgência no caminho e, entre outras situações, Wren vê uma pilha de crianças mortas após enfrentar um menino apontando a metralhadora para a equipe.


Frente a tanta violência, Wren explode em uma cena e fica evidente que para estar nessa situação é preciso incluir a saúde psíquica. Além disso, o filme interroga, será que essa população precisa “apenas” de alimento, cuidados básicos, saneamento, atendimento médico ou precisa também de sonho? Como é passar uma vida crua, apenas sobrevivendo, sem a condição maior que diferencia o ser humano dos outros animais?

Neste mesmo viés, o filme enfatiza que para o profissional de saúde estar ali é porque ele é idealista, precisa ter essa vida como seu sonho, pois a privacidade dele é engolfada pelo trabalho, além de, não ser um trabalho, digamos, simples. Como casar e ter filhos tendo uma vida aventureira como essa? Como ter a mínima privacidade de um romance? Miguel, o protagonista, é tachado de mulherengo por ter tido alguns relacionamentos em missão. Como não tê-los? Deveria ele abrir mão total de sua vida afetiva e sexual?

Junto com todos esses perigos iminentes, o filme ainda levanta o risco com o HIV. O sangue toma conta do cenário, corpos abertos e expostos, cirurgias feitas sem luvas ou proteções, bolsas de sangue contaminadas, sexualidade sem proteção.  

Sean Penn acerta no tom e na discussão. Um filme que envolve questões sérias da realidade, violência e muito afeto. 

Por: Fabiana Ratti, psicanalista 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

OKJA - um filme sobre contradições cotidianas




O filme Okja, dirigido por Bong Joon Ho e recentemente lançado na Netflix (28/6/2017), prova que é possível criar uma relação de empatia com criaturas quase monstruosas, as quais não inspirariam nenhum carinho na maior parte das pessoas à primeria vista.
Trata-se da história de uma super porca que mais parece um hipopótamo criada geneticamente em um laboratório nos EUA e que vive nas montanhas da Coréia do Sul com uma garota, Mija. O filme começa mostrando a rotina das duas na floresta, seus códigos de comunicação e até um episódio em que Okja salva Mija de cair de um penhasco se jogando em seu lugar. Há muito afeto na relação entre elas e uma calma de quem vive junto, em família. Mas, 10 anos depois, a empresa americana que havia incubido mija de criar Okja volta à Coréia do Sul para levar a super porca de volta à Nova York e fazer o lançamento de sua carne no mercado. E o filme segue mostrando esse conflito entre Mija, que quer salvar sua amiga do abatedouro, a empresa que investiu no animal e quer lucrar com a comercialização dos super porcos e um grupo de ativistas pró animais que quer expor a crueldade da indústria da carne.
Mas engana-se quem acha que o filme é exclusivamente uma apologia ao vegetarianismo e que o faz dando um nome ao animal e envolvendo o telespectador em uma relação de carinho com Okja. Paralelamente a isso há uma ironização bem humorada dos ativistas pró animais, pouco congruentes em suas atitudes e quase inocentes muitas vezes, e ainda, a própria Mija não é vegetariana. Ela e seu avô consomem outros animais e toda a aventura do filme se passa a partir da determinação de Mija em salvar Okja, não em acabar com a indústria da carne.

Assim, de forma extremamente bonita, bem humorada e respeitosa, o filme consegue nos fazer pensar sobre questões que caíram no esquecimento do nosso dia a dia. Contradições como porque temos tanta empatia por cachorros e gatos enquanto comemos um filé de vaca, como ouvimos discursos de paz proferidos por grupos que buscam essa paz através de violência, como apostamos na veracidade de políticas eco-friendly e “orgânicas” sem de fato sabermos quanto correspondem à verdade do produto que consumimos e ainda, como deixamos de questionar as práticas de reprodução e abate dos animais cuja carne abastece os supermercados. Tudo isso através de uma trama emocionante e delicada, muita ação e paisagens belíssimas.
Por: Ligia Ungaretti Jesus, Psicanalista.